sábado, 9 de junho de 2007

A Linha Amarela

Na cidade grande a vida é tão efêmera que não temos tempo nem para analisar nossas próprias atitudes. O que fazemos, o que falamos, o que pensamos, tudo isso, mesmo que sendo imoral ou anormal, passa como algo corriqueiro, por causa da correria do dia-a-dia.

Outro dia ao abrir o jornal li a seguinte notícia: “RJ:Homem cai nos trilhos e metrô é interrompido”. Para minha surpresa, 3 dias depois um site noticiou : “Pessoa cai nos trilhos da CPTM no Brás e morre”. Um amigo meu que anda todo dia pelos trilhos de São Paulo vive me dizendo: “Hoje o trem atrasou. Alguém queria se jogar nos trilhos”.

A primeira coisa que procuro saber quando leio estas notícias é o que fez a pessoa despencar no meio fio. Mal súbito, labirintite, loucura ou coisa assim? Não. Na maioria dos casos é a pura distração, é a ultrapassagem da simpática linha amarela de segurança sem perceber (ou percebendo, sim).

À espera pelo trem é um calvário para as pessoas. Os pensamentos viajam em problemas, amores, e porque não em como o trem vai estar. Você olha no relógio da estação, olha a sua volta e pensa: “Xiii tá enchendo de gente. Será que vai demorar muito?” Ninguém responde. Nem mesmo o atencioso homem que clama por um trocado pois está desempregado.

Nada do trem chegar. Vamos olhar para as pessoas ao redor. Gente feia, bonita, aquele que é pra casar, o outro parece com um ex-namorado, a outra parece com aquela menina bonitinha que você insiste em querer algo. Nada do nosso amigo de vagões chegar.

O tempo vai, o tempo vem, e você ansioso começa a olhar para o horizonte. Primeiro na direção contrária da onde vem o trem, admirando sabe se lá o quê. Pra falar a verdade àqueles prédios velhos e fábricas abandonadas começam a ficar atraentes. Sim, é a beleza urbana que você nunca havia reparado. Que coisa! Você passa por ali todo dia e nunca notou aquele amontoado de tijolos.

Vamos continuar admirando a paisagem? Sim, mas agora do lado em que o trem vai passar. Nesse instante as pessoas tentam avistar nosso meio de transporte. Nada! Nem um barulhinho, nem um pontinho lá no fim da vista. Você vai querer ver mais um pouquinho e aí você nota a beleza do trilho aos seus pés. Bitucas de cigarro e ratos convivem pacificamente .Nossa mas será que os ratinhos fazem buracos na plataforma? Não sei, na dúvida o melhor é se aproximar mais dos trilhos e nisso ouve-se um barulho chegando: “Fiiiiiiiiiii”. É o trem. Aquele que pode ser das 7 ou das 11 horas. Espanhol, inglês ou brasileiro. Bala ou aero. Ele está bem próximo. As pessoas já se amontoam perto da faixa amarela. E por falar em faixa amarela só agora que você notou que estava longe dela. O jeito é óbvio, tentar voltar. A multidão te espreme e o trem passa e como num cumprimento ao povo joga um belo golpe de ar em todos, inclusive em você que já estava sem muito equilíbrio...

Ê vida moderna. Ê mundo corporativo. Tudo é muito rápido, veloz e contraditório. Nos perdemos tentando ver os ratos e as bitucas nos trilhos e ás vezes caímos por aí. E tudo isso sabe por quê? Por causa do tédio de esperar a condução e por não respeitar a nossa amiga que está sempre ali. Brilhante ou fosca, clara ou mais escura, mas sempre ela. A nossa guardiã das tendências suicidas, a linha amarela.

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